Começar a investir em Moçambique não exige necessariamente um salário elevado. O primeiro passo é saber quanto dinheiro pode realmente ficar de lado, durante quanto tempo e qual o risco que está disposto a aceitar.

Para quem nunca investiu, o maior perigo não é começar com pouco. É começar sem entender onde está a colocar o dinheiro.

Em Moçambique, existem diferentes possibilidades para quem pretende aplicar as suas poupanças. O mercado de capitais permite investir em títulos como acções, obrigações e papel comercial através da Bolsa de Valores de Moçambique. Para comprar ou vender esses títulos, o investidor deve recorrer a uma instituição financeira ou a um operador de bolsa autorizado.

Mas chegar ao primeiro investimento começa muito antes de abrir uma conta de investimento.

Primeiro descubra se já está preparado para investir

Investir significa colocar dinheiro com a expectativa de obter algum benefício no futuro. Esse dinheiro, dependendo do investimento escolhido, pode ficar comprometido durante determinado período ou perder valor.

Por isso, não faz muito sentido investir o dinheiro que será necessário para pagar a renda no próximo mês.

Imagine uma pessoa que recebe 20.000 MT e consegue poupar 3.000 MT. Se ainda não possui nenhuma reserva para emergências, talvez seja mais importante construir primeiro uma pequena almofada financeira.

O motivo é simples. Se surgir uma despesa inesperada e todo o dinheiro estiver investido, a pessoa poderá ser obrigada a retirar o investimento antes do momento adequado.

O Banco de Moçambique recomenda que os consumidores considerem custos, remuneração esperada e riscos antes de escolherem produtos financeiros, além de destacar a importância da poupança para enfrentar despesas imprevistas.

Investir começa, portanto, com organização financeira.

Defina para que serve o dinheiro

Antes de escolher qualquer investimento, defina o objectivo.

O dinheiro é para comprar uma casa? Para financiar os estudos dos filhos? Para preparar a reforma? Para criar património? Ou simplesmente para não deixar as poupanças paradas?

A resposta é importante porque o prazo muda completamente a escolha.

Se pretende utilizar o dinheiro daqui a três meses, não deve tratá-lo da mesma forma que uma quantia que só pretende utilizar daqui a dez anos.

Um investimento pode ser interessante para um determinado prazo e inadequado para outro.

Por isso, em vez de começar pela pergunta “qual investimento rende mais?”, comece por perguntar “quando vou precisar deste dinheiro?”.

Comece com um valor que consiga manter

Não existe necessidade de esperar até juntar 100.000 MT para começar a aprender a investir.

Se consegue separar 1.000 MT por mês, esse pode ser o seu ponto de partida. Se consegue 5.000 MT, melhor ainda.

O importante é que o valor não prejudique as despesas essenciais.

Uma pessoa que ganha 15.000 MT e consegue guardar 1.000 MT todos os meses pode construir gradualmente uma carteira. Outra que ganha 50.000 MT pode ter capacidade para investir muito mais.

Não é o valor inicial que determina sozinho o sucesso. A regularidade também conta.

Investir 2.000 MT todos os meses durante vários anos pode ser mais útil do que colocar uma grande quantia uma única vez e depois abandonar completamente o processo.

Entenda a diferença entre poupar e investir

Poupança e investimento estão relacionados, mas não são a mesma coisa.

Quando guarda dinheiro numa conta ou outro instrumento de poupança, normalmente está a privilegiar segurança e disponibilidade, dependendo das condições do produto.

Quando investe, aceita algum nível de risco na tentativa de obter rendimento ou valorização.

Uma acção, por exemplo, pode aumentar de preço, mas também pode perder valor. Uma obrigação tem características diferentes, incluindo prazo, remuneração e condições de reembolso.

A BVM explica que, ao comprar acções, o investidor passa a ser accionista da empresa e o rendimento pode resultar de dividendos e da valorização das acções. Nas obrigações, o investidor torna-se credor do emitente e recebe juros de acordo com as condições estabelecidas.

Compreender esta diferença antes de investir é fundamental.

Uma das portas de entrada é a Bolsa de Valores de Moçambique

Quem pretende conhecer o mercado de capitais moçambicano pode começar pela Bolsa de Valores de Moçambique.

A BVM permite negociar diferentes títulos, incluindo acções, obrigações e papel comercial. As ordens de compra e venda são transmitidas através de operadores autorizados.

O processo não significa simplesmente escolher uma empresa e enviar dinheiro para ela.

O investidor precisa de recorrer a uma entidade autorizada, indicar o título que pretende comprar, a quantidade, o preço e o prazo de validade da ordem.

A BVM explica ainda que existem custos associados à ordem, incluindo taxas da Bolsa, da Central, do operador e eventuais comissões da instituição financeira.

Esses custos devem fazer parte da análise antes da compra.

Não escolha um investimento apenas porque alguém recomendou

Um dos maiores erros de quem começa é investir porque um amigo, familiar ou pessoa nas redes sociais disse que determinado activo “vai subir”.

Uma recomendação pode despertar interesse, mas não substitui a análise.

Antes de colocar dinheiro num investimento, procure entender como ele funciona, de onde vem o possível rendimento, quais são os riscos, quanto tempo o dinheiro pode ficar aplicado e quais custos serão cobrados.

Se não consegue explicar com palavras simples aquilo que está a comprar, provavelmente ainda não está preparado para colocar dinheiro nesse produto.

Não há problema em esperar.

Perder uma oportunidade de investimento é normalmente menos perigoso do que colocar dinheiro num produto que não compreende.

Conheça os operadores autorizados

Para quem pretende investir na BVM, outro passo importante é verificar com quem está a negociar.

A própria BVM publica uma lista de operadores autorizados a dar acesso aos investidores individuais. Entre os operadores listados encontram-se bancos e sociedades financeiras de corretagem.

Isso é importante porque o investidor não deve entregar dinheiro a qualquer pessoa que prometa acesso a investimentos.

Antes de transferir valores, confirme a entidade, os custos e as condições da operação.

A existência de uma página nas redes sociais ou de uma promessa de lucro não significa que a entidade esteja autorizada a prestar serviços de investimento.

Começar com acções ou obrigações?

Não existe uma resposta que sirva para todos.

As acções representam uma participação numa empresa. O seu valor pode variar e o rendimento pode vir de dividendos ou da valorização do título.

As obrigações são instrumentos de dívida. Quem compra uma obrigação torna-se credor do emitente e recebe juros de acordo com as condições da emissão.

Isso significa que não basta perguntar qual rende mais.

É necessário perguntar qual corresponde ao seu objectivo e à sua capacidade de suportar risco.

Uma pessoa que procura crescimento e aceita oscilações pode ter uma abordagem diferente de alguém que privilegia previsibilidade e determinado prazo.

Não coloque todo o dinheiro no primeiro investimento

Suponha que conseguiu juntar 50.000 MT para investir.

Isso não significa que precisa de colocar os 50.000 MT imediatamente num único activo.

Primeiro confirme se parte desse dinheiro deveria permanecer disponível como reserva. Depois analise os investimentos que realmente compreende.

A diversificação pode ajudar a evitar que todo o património dependa do desempenho de um único investimento. A própria BVM aponta a diversificação das aplicações de poupança como uma das vantagens de investir em títulos cotados.

Diversificar, porém, não significa comprar tudo o que aparece no mercado. Significa distribuir o dinheiro de forma coerente com os seus objectivos.

Quanto tempo deve estudar antes de começar?

Não é necessário tornar-se especialista em finanças antes de investir.

Mas precisa de saber o suficiente para tomar uma decisão consciente.

Comece por compreender conceitos básicos como risco, rentabilidade, inflação, liquidez, juros, dividendos e custos.

Depois procure informações sobre o investimento específico que pretende fazer.

A educação financeira tem precisamente esse objectivo. Segundo o Banco de Moçambique, ela procura melhorar a compreensão dos consumidores e investidores sobre produtos, conceitos e riscos financeiros, ajudando-os a tomar decisões mais informadas.

Quanto mais compreender o produto, menor será a probabilidade de tomar uma decisão apenas porque alguém prometeu ganhos.

O primeiro investimento não precisa de ser perfeito

Muita gente nunca começa porque está à procura do investimento perfeito.

Quer encontrar o activo que vai render mais, a melhor altura para comprar ou a oportunidade que não apresenta praticamente nenhum risco.

Esse investimento perfeito não existe.

O que existe é um investimento que pode fazer sentido para determinada pessoa, num determinado momento, com determinado objectivo e determinado nível de risco.

Começar a investir em Moçambique deve ser um processo gradual.

Primeiro organize as suas finanças. Depois construa uma reserva adequada. Defina o objectivo do dinheiro. Conheça os produtos disponíveis. Compare custos e riscos. Escolha uma entidade autorizada e só então faça a primeira aplicação.

Se começar com 1.000 MT, não significa que está a fazer um investimento insignificante. Está a começar a desenvolver uma capacidade que poderá utilizar durante muitos anos.

O mais importante é não confundir investimento com enriquecimento rápido.

O investimento é uma ferramenta para construir património ao longo do tempo. Quanto mais cedo aprender a utilizá-la correctamente, maior será a possibilidade de tomar decisões melhores no futuro.

Em Moçambique, já existem mecanismos formais para quem quer participar no mercado de capitais, e a BVM disponibiliza informação sobre títulos, negociação e operadores autorizados.

O primeiro passo, portanto, não é procurar onde colocar o dinheiro.

É aprender a decidir onde colocá-lo.